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Convento da Fraternidade Franciscana de Betânia

Mixtura (Maria Grazia Prencipe, Cesare Querci)

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil, Itália

A obra é o resultado de um percurso projetual fortemente compartilhado entre clientes e arquitetos, destinado a criar um organismo arquitetônico capaz de encarnar o carisma franciscano, fundado na oração e na acolhida, e ao mesmo tempo responder aos desafios impostos pelo clima tropical de Salvador. O projeto nasce das regras que marcam a vida monástica — oração, trabalho, partilha — e relê a tipologia conventual clássica, tradicionalmente introvertida e organizada em torno de um único claustro, fragmentando o edificado e articulando o conjunto em cinco pátios verdes. Assim, cada edifício estabelece uma relação direta com o espaço aberto, aproveitando a ventilação natural gerada pelo vento que sopra constantemente do oceano.

Os corpos edificados, autônomos e funcionalmente distintos, são reunidos sob grandes coberturas que exercem uma dupla função simbólica e bioclimática. Elevadas em relação aos invólucros, favorecem o escoamento do ar quente e contribuem para o conforto dos ambientes. Brises-soleil, paredes permeáveis e painéis pivotantes abríveis permitem ventilação cruzada, reduzindo a necessidade de sistemas mecânicos de resfriamento.

A tectônica do material torna-se elemento central do projeto. As tramas de madeira se declinam ora como estrutura portante, ora como fechamento ou elemento bioclimático, conferindo caráter unitário ao conjunto e, ao mesmo tempo, diferenciando os edifícios. A madeira filtra, protege e estrutura o espaço, alternando transparências e opacidades conforme a função e a posição.

Cada edifício preserva uma identidade própria dentro de um organismo unitário. A igreja é concebida como uma grande treliça tridimensional que gera, na parede de fundo, uma cruz natural: símbolo e fulcro do espaço litúrgico. O refeitório, permeável e flexível, abre-se à comunidade e pode acolher também eventos coletivos. A biblioteca, suspensa sobre pilares de madeira e revestida em policarbonato translúcido, transforma-se à noite em uma lanterna luminosa. Os alojamentos, executados em concreto armado pré-fabricado e circundados por um exoesqueleto de madeira, abrigam as celas e garantem sombreamento e ventilação cruzada.

Todo o conjunto combina sobriedade construtiva, estratégias passivas e soluções low-tech com tecnologias contemporâneas, como painéis fotovoltaicos e reaproveitamento das águas pluviais, alcançando um elevado grau de autonomia energética. O resultado é uma arquitetura resiliente, enraizada no contexto, que não persegue a inovação como um fim em si, mas se alimenta de saberes sedimentados capazes de responder ao clima, aos recursos e aos ritmos da comunidade. Uma arquitetura que olha para o vernáculo, não para imitá-lo, mas para compreender sua lógica profunda e projetá-la no presente com escolhas projetuais conscientes.

Mixtura

Mixtura é um estúdio de arquitetura com sede em Roma, fundado pelos arquitetos Maria Grazia Prencipe e Cesare Querci. O estúdio explora o espaço contemporâneo em suas dimensões formais, sociais e estéticas, adotando uma abordagem baseada na compreensão das especificidades dos contextos em que atua.