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13ª BIENAL INTERNACIONAL
DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO

Travessias

“É preciso a imagem para recuperar a identidade, tem que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.” (Beatriz Nascimento em trecho do filme Ori).

 

A Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo é realizada pelo IABsp desde 1973 e se firmou como um dos eventos mais significativos para o debate e o desenvolvimento crítico sobre arquitetura e território brasileiros.

Para a sua 13ª edição, a ocorrer entre os dias 21 de maio e 10 de julho de 2022, foi aberto um Concurso Internacional de Co-Curadoria, que teve como vencedora a proposta da equipe Travessias, formada por nove integrantes brasileiros¹ de diversas áreas de atuação e que, ao lado da curadora residente, Sabrina Fontenele, vêm pensando a edição atual.

O edital do IABsp lançou como provocação inicial a temática da reconstrução, tendo como cenário as intensas transformações nos espaços e dinâmicas sociais trazidas pela pandemia de COVID-19. E, para fundamentar esta reflexão, foram propostos os seguintes eixos norteadores preliminares: democracia, corpos, memória, informação e ecologia.

O recorte curatorial aventado pela equipe Travessias entende que a pandemia de COVID-19 reforça desigualdades socioespaciais que já se estabeleciam no país e em esfera global. Partindo dessa perspectiva, a ideia de reconstrução em debate lança uma reflexão sobre as dinâmicas inerentes à produção dos espaços. Compreende, dessa forma, que essas são estruturas marcadas pela fragmentação, pelas descontinuidades e pelas simultaneidades, tanto físicas quanto simbólicas, cujas origens estão enraizadas nos violentos processos de colonização e são marcadas por desigualdades e apagamentos históricos, que provocam inúmeras manifestações de opressão – como o racismo, o sexismo, o capacitismo e o colonialidade – no Brasil e em diversos territórios pelo mundo.

Os territórios brasileiros, extremamente fragmentados, estão costurados como uma colcha de retalhos e a 13ª Bienal representa uma possibilidade de atravessá-la e de apresentar tanto o compartilhamento de urbanidades possíveis, quanto a oportunidade de reinterpretação de memórias coletivas ancestrais. A equipe curatorial da 13ª Bienal, a partir do conceito de travessias² de Maria Beatriz Nascimento, busca investigar o que do passado colonial e das diásporas permanece e o que se altera nos deslocamentos das populações do mundo. Seja no trajeto diário casa – trabalho, seja nas migrações forçadas ou espontâneas entre Ocidentes e Orientes. O que sobra, o que fica?

As Travessias permanecem contínuas, atravessadas pela diversidade dos corpos, que continuamente sofrem vulnerabilidades materializadas na estrutura de sua vida, de seu acesso à cidade. Entre tais consequências, tornam-se evidentes as tentativas de apagamento de seus modos de existir, também por meio do silenciamento de suas narrativas, tornando essas Travessias ainda mais sensíveis, já que a memória político-social sobre essas populações é seletiva: tende a exaltar e propiciar o funcionamento da estrutura colonial em detrimento de perspectivas individuais e comunitárias.

Essas marcas presentes na história tornam-se narrativas elencadas na própria construção das nações e, ainda que possuindo origens coloniais de séculos atrás, são a base estrutural destes territórios. Nascem também como um projeto, um investimento para o que temos hoje como sociedade.

“A memória são os conteúdos de um continente, da sua vida, da sua história, do seu passado. Como se o corpo fosse o documento.” (Beatriz Nascimento em trecho do filme Ori).

A insurgência das vozes que construíram e ainda constroem o país é o chamamento para criação e recuperação de espaços dentro do território partilhado que possam servir para a escuta e diálogo dessas narrativas.

As Travessias pretendem estimular reflexões críticas com relação ao espaço contemporâneo enquanto desdobramento de eventos passados e ainda em curso por meio de narrativas que reconstruam temporalidades e levantamentos coletivos de memórias apagadas. Tem como fio condutor a relação entre corpos e territórios pelo viés de sua agência, seus apagamentos e suas resistências.

A possibilidade de visibilizar e intercruzar espaços e narrativas tende a ser uma ferramenta que entrelaça saberes e sentimentos extrapolando a dicotomia entre erudito e marginal, que conforma uma “estrutura de sentimentos” e redes de atravessamentos que afetam e ensinam sobre diversas formas de atuação, resgate e adaptação de práticas, formas de vida e do viver em comunidade.

1 Carolina Piai Vieira, Larissa Francez Zarpelon, Louise Lenate Ferreira da Silva, Luciene Gomes, Pedro Cardoso Smith, Pedro Vinícius Alves, Raíssa Albano de Oliveira, Thiago Sousa Silva, Viviane de Andrade Sá.
2 O conceito travessia foi trabalhado pela professora, poetisa, historiadora, roteirista e ativista pelos direitos humanos Maria Beatriz Nascimento. Mulher negra, sergipana, desenvolveu estudos e reflexões sobre as histórias dos movimentos e trânsitos populacionais brasileiros, em especial relativos às populações negras.

© Luisa C. Zucchi (2017)

© Inês Bonduki, da série Linha Vermelha (2017)

© Pedro Céu. São José dos Campos (2020)

© Tuca Vieira. Paraisópolis

© Luisa C. Zucchi (2017)

© Nelson Kon. Estação de tratamento de água da Indústria de papéis Ahlstrom Munksjo em Caieiras/ SP (2019)

© Tuca Vieira. Paulista

13ª BIENAL INTERNACIONAL
DE ARQUITETURA
DE SÃO PAULO

Travessias

“É preciso a imagem para recuperar a identidade, tem que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.” (Beatriz Nascimento em trecho do filme Ori).

A Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo é realizada pelo IABsp desde 1973 e se firmou como um dos eventos mais significativos para o debate e o desenvolvimento crítico sobre arquitetura e território brasileiros.

Para a sua 13ª edição, a ocorrer entre os dias 21 de maio e 10 de julho de 2022, foi aberto um Concurso Internacional de Co-Curadoria, que teve como vencedora a proposta da equipe Travessias, formada por nove integrantes brasileiros¹ de diversas áreas de atuação e que, ao lado da curadora residente, Sabrina Fontenele, vêm pensando a edição atual.

O edital do IABsp lançou como provocação inicial a temática da reconstrução, tendo como cenário as intensas transformações nos espaços e dinâmicas sociais trazidas pela pandemia de COVID-19. E, para fundamentar esta reflexão, foram propostos os seguintes eixos norteadores preliminares: democracia, corpos, memória, informação e ecologia.

O recorte curatorial aventado pela equipe Travessias entende que a pandemia de COVID-19 reforça desigualdades socioespaciais que já se estabeleciam no país e em esfera global. Partindo dessa perspectiva, a ideia de reconstrução em debate lança uma reflexão sobre as dinâmicas inerentes à produção dos espaços. Compreende, dessa forma, que essas são estruturas marcadas pela fragmentação, pelas descontinuidades e pelas simultaneidades, tanto físicas quanto simbólicas, cujas origens estão enraizadas nos violentos processos de colonização e são marcadas por desigualdades e apagamentos históricos, que provocam inúmeras manifestações de opressão – como o racismo, o sexismo, o capacitismo e o colonialidade – no Brasil e em diversos territórios pelo mundo.

Os territórios brasileiros, extremamente fragmentados, estão costurados como uma colcha de retalhos e a 13ª Bienal representa uma possibilidade de atravessá-la e de apresentar tanto o compartilhamento de urbanidades possíveis, quanto a oportunidade de reinterpretação de memórias coletivas ancestrais. A equipe curatorial da 13ª Bienal, a partir do conceito de travessias² de Maria Beatriz Nascimento, busca investigar o que do passado colonial e das diásporas permanece e o que se altera nos deslocamentos das populações do mundo. Seja no trajeto diário casa – trabalho, seja nas migrações forçadas ou espontâneas entre Ocidentes e Orientes. O que sobra, o que fica?

As Travessias permanecem contínuas, atravessadas pela diversidade dos corpos, que continuamente sofrem vulnerabilidades materializadas na estrutura de sua vida, de seu acesso à cidade. Entre tais consequências, tornam-se evidentes as tentativas de apagamento de seus modos de existir, também por meio do silenciamento de suas narrativas, tornando essas Travessias ainda mais sensíveis, já que a memória político-social sobre essas populações é seletiva: tende a exaltar e propiciar o funcionamento da estrutura colonial em detrimento de perspectivas individuais e comunitárias.

Essas marcas presentes na história tornam-se narrativas elencadas na própria construção das nações e, ainda que possuindo origens coloniais de séculos atrás, são a base estrutural destes territórios. Nascem também como um projeto, um investimento para o que temos hoje como sociedade.

“A memória são os conteúdos de um continente, da sua vida, da sua história, do seu passado. Como se o corpo fosse o documento.” (Beatriz Nascimento em trecho do filme Ori).

A insurgência das vozes que construíram e ainda constroem o país é o chamamento para criação e recuperação de espaços dentro do território partilhado que possam servir para a escuta e diálogo dessas narrativas.

As Travessias pretendem estimular reflexões críticas com relação ao espaço contemporâneo enquanto desdobramento de eventos passados e ainda em curso por meio de narrativas que reconstruam temporalidades e levantamentos coletivos de memórias apagadas. Tem como fio condutor a relação entre corpos e territórios pelo viés de sua agência, seus apagamentos e suas resistências.

A possibilidade de visibilizar e intercruzar espaços e narrativas tende a ser uma ferramenta que entrelaça saberes e sentimentos extrapolando a dicotomia entre erudito e marginal, que conforma uma “estrutura de sentimentos” e redes de atravessamentos que afetam e ensinam sobre diversas formas de atuação, resgate e adaptação de práticas, formas de vida e do viver em comunidade.

1 Carolina Piai Vieira, Larissa Francez Zarpelon, Louise Lenate Ferreira da Silva, Luciene Gomes, Pedro Cardoso Smith, Pedro Vinícius Alves, Raíssa Albano de Oliveira, Thiago Sousa Silva, Viviane de Andrade Sá.
2 O conceito travessia foi trabalhado pela professora, poetisa, historiadora, roteirista e ativista pelos direitos humanos Maria Beatriz Nascimento. Mulher negra, sergipana, desenvolveu estudos e reflexões sobre as histórias dos movimentos e trânsitos populacionais brasileiros, em especial relativos às populações negras.

© Luisa C. Zucchi (2017)

© Pedro Céu. São José dos Campos (2020)

© Tuca Vieira. Paraisópolis

© Luisa C. Zucchi (2017)

© Nelson Kon. Estação de tratamento de água da Indústria de papéis Ahlstrom Munksjo em Caieiras/ SP (2019)

© Tuca Vieira. Paulista