Implantação do projeto: Jamaica
Desenvolvimento do projeto: Alemanha

Estudante: Vanessa Verona Herold
Orientação: R. Radulova-Stahmer & V. Katthagen

Costa Viva – Ancestrando o Futuro da Jamaica é uma proposta de design visionária dedicada a regenerar e proteger os frágeis ecossistemas costeiros da Jamaica. Concebido como uma rede de sete estações de reabilitação, o projeto se estende ao longo do litoral da ilha e aborda habitats diversos: orlas urbanas, manguezais, zonas de água salobra, prados de gramas marinhas e recifes de coral, ambientes de mar profundo, e praias arenosas e rochosas. Cada estação atua como um ponto de ancoragem, estrategicamente projetado para enfrentar os desafios de seu ambiente específico, contribuindo para um sistema de recuperação maior e interconectado.

As intervenções unem adaptação climática, restauração de ecossistemas e engajamento comunitário. Zonas úmidas flutuantes filtram a água e criam habitats para espécies aquáticas; quebra-mares bioativos protegem o litoral enquanto abrigam a biodiversidade marinha; viveiros de mangue e coral cultivam vida para reintrodução em áreas degradadas. Piscinas de resgate animal, pontes ecológicas e caiaques microfiltradores ilustram como estratégias baseadas na natureza podem se fundir com a arquitetura e o paisagismo. Esses exemplos são parte de uma visão mais ampla: juntas, as sete estações formam uma estrutura holística e transferível que fortalece a resiliência e redefine como os humanos interagem com as paisagens costeiras.

Embora todas as estações tenham sido exploradas conceitualmente, três foram estudadas em maior profundidade para exemplificar a abordagem estratégica: a Estação de Mangue em Jackson Bay, onde viveiros e passarelas elevadas restauram um vital sumidouro de carbono; a Estação de Praia Arenosa e Rochosa em Unity Bay, onde a costa e as tartarugas marinhas são protegidas por meio de defesas bioativas e um centro de resgate; e a Estação de Estuário em Buff Bay, onde pontes ecológicas e piscinas de retenção de água revitalizam frágeis fozes de rios. Juntas, elas demonstram como estratégias adaptadas localmente se tornam parte de um único sistema vivo.

Por trás deste projeto está Vanessa Verona Herold, uma mestranda alemã-jamaicana em Arquitetura na Jade University of Applied Sciences em Oldenburg, Alemanha. Após concluir sua graduação com distinção, ela está atualmente finalizando sua tese de mestrado com resultados excelentes. Seus estudos anteriores em Arte, Mídia, Filosofia e Ética moldaram uma abordagem de design criativa, porém reflexiva, equilibrando imaginação artística com um profundo senso de responsabilidade ecológica. Com foco em edificações culturais públicas e design urbano, ela integra consistentemente dimensões sociais e ambientais em seu trabalho.

O projeto foi desenvolvido no âmbito da disciplina de mestrado “Projeto de Design Individual” sob a orientação da Prof.ª Dr.-Ing. Radostina Radulova-Stahmer (Design Urbano Regenerativo) e do Prof. Dipl.-Ing. M.Sc. Volker Katthagen (Design Urbano e Planejamento Paisagístico). Ambos a encorajaram a explorar a interseção entre arquitetura, ecologia e comunidade, enquanto ela concebeu e desenvolveu o conceito de forma independente.

Para Herold, Costa Viva é mais do que um exercício acadêmico — é uma visão pessoal profundamente conectada à sua herança jamaicana e à sua convicção de que a sustentabilidade na arquitetura deve ir além do design centrado no ser humano. “A sustentabilidade”, ela enfatiza, “não é opcional. É uma responsabilidade fundamental — para com as futuras gerações, para com o passado que honramos e para com os ecossistemas dos quais dependemos.”

Ao ancorar a recuperação ecológica ao longo da costa jamaicana, Costa Viva oferece não apenas um roteiro esperançoso para a conservação da biodiversidade e a resiliência climática, mas também uma estratégia escalável para regiões costeiras em todo o mundo — uma promessa de salvaguardar a riqueza natural da ilha e inspirar futuros sustentáveis para as gerações que estão por vir.

Estudantes: Ishiyama, Condori, Fuentes, Meneses, Paucar, Quispe

Lima está localizada em um dos poucos vales do deserto do litoral peruano e é um grande atrator de população que migra em busca de oportunidades. A cidade cresceu de forma desordenada, recebendo população do interior que se instala de forma precária, geralmente em locais vulneráveis e inadequados.
San Juan de Lurigancho (SJL) é o distrito com maior população de Lima e é um claro reflexo do fenômeno de transbordamento da cidade.


“San Fernando” está localizado no setor 4 de SJL, sendo formado por um grupo de comunidades jovens que compartilham uma escola, empreendimentos e um único espaço público.

O espaço público é composto por 3 plataformas dispostas de forma descendente. A plataforma baixa é a quadra de vôlei, a intermediária é a laje de multiuso e a pequena superior é a área de jogos. O projeto propõe reutilizar a infraestrutura do local, fazendo pequenas melhorias para potencializar a atividade existente e promover novas através do uso do espaço flexível.

Estuda-se o percurso solar para ampliar os espaços de sombra e aproveita-se a ventilação natural. Produz-se energia para equipamentos e iluminação utilizando painéis solares, reutiliza-se as águas cinzas tratadas, para habilitar mecanismos hidráulicos para ajudar pessoas com deficiência e manter uma área verde comunitária.

Propõe-se a instalação de um reservatório para armazenamento de água e um sistema de distribuição por gravidade, para garantir o acesso ao recurso em períodos de seca, emergência ou desastre.

O projeto procura melhorar o setor fazendo muito com pouco. Buscamos que o bairro encontre no espaço público melhorado o suporte adequado para se reunir, se organizar e enfrentar os desafios.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: EUA

Estudante: Rodrigo Gallardo

The Fluid Territory explora a cidade além dos mapas, aquela que existe na memória, na experiência e nas histórias não contadas de seus habitantes. Em Vargem Grande, periferia de São Paulo, essa diferença se torna evidente: os mapas a mostram como um fragmento urbano em meio à floresta, mas a vida cotidiana revela outra realidade, marcada pela precariedade da habitação, pela falta de acolhimento das escolas e por um território vivido entre o medo e o esquecimento da natureza.

O projeto surge do diálogo com os moradores e da presença dos Guarani, reconhecendo que o território é compartilhado entre diferentes mundos: os jurua, que chegaram em busca de moradia, e o povo originário, cuja visão de mundo oferece outras formas de habitar. Em vez de impor respostas fechadas, as intervenções propõem condições abertas, capazes de acolher a diversidade de vozes e necessidades.

Na escola, corredores estreitos e salas quentes de metal dão lugar a espaços de encontro, onde o conhecimento circula além dos muros. Nas casas, o que antes era instabilidade se transforma em estruturas que fortalecem a permanência e a dignidade de seus moradores. A floresta, até então temida e distante, é reconectada por trilhas e percursos que convidam ao uso, ao convívio e à memória coletiva.

O trabalho não busca soluções definitivas, mas abrir possibilidades. Trata-se de pensar a arquitetura como um instrumento de escuta, capaz de fazer emergir aquilo que já existe de forma latente: a força da comunidade, a memória partilhada e a coexistência entre diferentes modos de vida. Se toda cidade é um palimpsesto de histórias sobrepostas, aqui o gesto arquitetônico não é apagar, mas revelar.

Mais do que construir edifícios, trata-se de construir condições para que novos caminhos possam ser abertos, caminhos em que a escola, a casa e a floresta deixam de ser fragmentos isolados para se tornarem parte de uma mesma trama coletiva.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Departamento de Arquitetura e Urbanismo – UFES. Projetos Especiais II (ARQ 12226). 2025/01

A presente proposta é o resultado parcial da disciplina Projetos Especiais II (ARQ-12226) ofertada pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (DAU-UFES), sendo a continuidade de estudos e pesquisas acadêmicas de professores e alunos que relacionam a temática das águas com as cidades. A abordagem é a de projeto de arquitetura de infraestruturas urbanas e regionais fluviais e marítimas que busca se aproximar de fundamentos de usos múltiplos das águas e de aproveitamento integral das bacias hidrográficas. O objeto de estudo principal é o Rio Doce – importante bacia da Região Hidrográfica do Sudeste – que possui sua área de contribuição presente nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Historicamente o vale do Rio Doce foi um eixo de penetração para o continente – como via natural sua navegação era desempenhada em trechos aquáticos que eram complementados por caminhos terrestres nas suas margens. Sucessivas ações antrópicas devastaram as margens fluviais, suprimindo as matas ciliares e assoreando o leito do rio, culminando em 2015 com o rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG) que lançou rejeitos de mineração nos corpos hídricos que contaminaram a bacia do Rio Doce em escala monumental, desde Minas Gerais até o Espírito Santo, uma torrente de lama tóxica alcançou o mar territorial brasileiro com impactos que ainda estão sendo mensurados.

A proposta da hidrovia do Rio Doce compreende os trechos médio e baixo do rio, entre Ipatinga (MG) e Regência (ES), conectando o Vale do Aço aos portos marítimos como um terceiro eixo de transportes que se junta em feixe à Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) e às rodovias das vertentes longitudinais do rio. A hidrovia principal projetada possui 444 km de extensão e desnível hídrico total de 215 m de Ipatinga até a foz, com 35 Barragens de Aproveitamentos Múltiplos (BAM) – 32 novas de baixa queda e 3 existentes transpostas por escadas de eclusas. As novas barragens – com desníveis máximos de 5 m – foram projetadas para se adequar à escala urbana e ambiental do seu entorno, minimizando as áreas alagadas nas margens e reduzindo a classificação de riscos dos barramentos. Além da navegação, as barragens integram as funções de geração de energia a baixo custo, saneamento ambiental, conexão entre as margens, aquicultura/pesca, controle de inundações e combate às secas. Os reservatórios principais serão complementados por lagos de alimentação nos afluentes, constituindo um sistema integrado de infraestruturas de regulagem das vazões ao longo do ano, assim como, de recarga hídrica da bacia. As áreas alagadas também poderão ser usadas em programas públicos de uso sustentável das águas em associações positivas com as comunidades ribeirinhas. A hidrovia ainda abre oportunidades para ações de educação ambiental, recreação, esportes e turismo fluvial ao longo das margens reflorestadas, tornando melhor a convivência da população ribeirinha com as águas.

Implantação do projeto: Itália
Desenvolvimento do projeto: Itália

Estudantes do curso Learning from Abroad 2025: Andrea Moscatelli, Carmen Cicia, Chiara Di Cesare, Enrico Maria Corvese Ester Teresa Castillo Anis, Flavia Montegiglio, Francesco Di Gennaro, Gabriele Petrucco, Gianmarco Ottaviani, Hanna Helm, Leonardo Brustolon, Nina Signolet e Valentina Martucci

Vivemos uma crise climática sem precedentes. Apesar do Acordo de Paris de 2015, o mundo falhou em reduzir suas emissões. O ano de 2023 bateu recordes, e 2024 confirma uma tendência ainda mais alarmante. Climatologistas admitem que suas previsões foram otimistas: o limite de 1,5°C, previsto para 2030, já foi superado. A relação entre emissões de carbono, aumento da temperatura e elevação dos oceanos é hoje incontestável.

Neste contexto crítico, a disciplina Learning from Abroad da Universidade Roma Tre, propõe uma reflexão projetual urgente, reconhecendo o desafio desta geração de arquitetos, chamada a atuar num cenário de incertezas e mudanças aceleradas. O projeto L’Architettura Inevitabile enfrenta o imprevisível: não sabemos o futuro nível do mar, o efeito nas cadeias produtivas, infraestrutura e migração climática, com impactos territoriais em escala planetária.

Algumas cidades terão recursos para conter o mar, mas não a maioria É hora de abandonar a ideia de dominar a natureza: a água é mais forte e antiga que nós. Devemos aprender a conviver com ela e reinterpretar os territórios com inteligência.

Os alunos trabalharam o tema a partir de um caso específico, a Isola Sacra, no litoral romano. Assumiu-se o cenário de elevação do nível do mar em 2 metros — extremo, mas cada vez mais plausível. Em conjunto, eles estudaram a história e as características do local. Em seguida, organizados em subgrupos, desenvolveram projetos arquitetônicos integrados, sem perder de vista decisões coletivas. As escalas regional, local e arquitetônica caminharam juntas — como deve ser.

Este trabalho apresenta um Masterplan coletivo composto por cinco projetos distintos, porém intimamente integrados. Cada um enfrenta a água de modo único: um centro cultural que se transforma com as marés; um hospital sobre palafitas; casas flutuantes e escola que se elevam com a água; um centro esportivo que integra a água como paisagem; e um complexo arqueológico que inclui a transformação do território em seu discurso.

Em todos, o tempo e a água são protagonistas.

Por fim, um último projeto ainda permanece como embrião para uma futura reflexão: o parque arqueológico do futuro. Uma área mais densa da Isola Sacra, que será tomada pela água e pela vegetação, será transformada numa ruína visitável, monumento ao nosso tempo e às contradições da ocupação territorial.
Vale lembrar: trata-se de um exercício de poucos meses, com alta complexidade, do território ao edifício. Nem o Masterplan, nem os projetos se pretendem finais. Mesmo sem o tempo, a profundidade e a interdisciplinaridade que o tema exige, os alunos lançaram-se num desafio doloroso, mas urgente. O projeto dos alunos Andrea Moscatelli, Carmen Cicia, Chiara Di Cesare, Enrico Maria Corvese Ester Teresa Castillo Anis, Flavia Montegiglio, Francesco Di Gennaro, Gabriele Petrucco, Gianmarco Ottaviani, Hanna Helm, Leonardo Brustolon, Nina Signolet e Valentina Martucci pode ser entendido em maior detalhe aqui: https://acesse.one/tQjaH

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Caroline Jahn, Fabiane Calistro, Guilherme Staub, Yan Kruchin

Entre Margens: uma cidade em camadas é um projeto que busca reconciliar Porto Alegre com o Lago Guaíba, ressignificando um de seus maiores símbolos de separação: o Muro da Mauá. Porto Alegre sempre foi moldada por sua relação com a água — uma presença que, ao longo do tempo, tornou-se tanto identidade quanto desafio. O Guaíba, antes espaço de encontro e lazer, hoje é também limite físico e simbólico, marcado por enchentes que expõem a vulnerabilidade da infraestrutura urbana frente às mudanças climáticas.

Erguido como barreira contra as cheias, o muro acabou por afastar a cidade de sua orla, transformando o contato com a água em ausência. Ao tentar conter o rio, a cidade conteve a si mesma, relegando o lago a um pano de fundo inacessível. A proposta parte do reconhecimento dessa ruptura e busca transformá-la em oportunidade: reconfigura o muro não como barreira, mas como linha de costura entre o natural e o construído, entre passado e futuro.

O projeto redesenha essa borda rígida como espaço de encontro, circulação e permanência. Um passeio elevado conecta o Centro Histórico ao Cais Mauá, devolvendo protagonismo ao pedestre e oferecendo espaços de lazer, contemplação e mobilidade ativa. Faixas verdes e ciclovias percorrem o traçado, auxiliando na drenagem urbana e trazendo conforto ambiental, enquanto os galpões do cais são reativados como polos culturais, gastronômicos e comunitários.

Sua materialidade reforça esses princípios: uma estrutura leve e sustentável, em madeira engenheirada e módulos pré-fabricados, com soluções de infraestrutura verde – como jardins de chuva, pavimentos permeáveis e vegetação nativa – ampliando a resiliência urbana diante de eventos extremos.

Entre Margens não apaga a história: reconhece as camadas da cidade, suas fronteiras e contradições. O Muro da Mauá permanece — mas agora, é chão. É caminho. É cidade.

Implantação do projeto: Chile
Desenvolvimento do projeto: Chile

O projeto de pesquisa-ação “Errando se Aprende” se situa, em Reñaca Alto Sur (Viña del Mar, Chile), território marcado pela precariedade habitacional, pela exclusão urbana e pela vulnerabilidade diante dos incêndios florestais. A quebrada Huasco, historicamente vista como limite, possui grande potencial para converter-se em corredor de vida comunitária e ecológica. A crise climática e os incêndios de 2024 acentuaram a urgência de repensar esse espaço, mostrando a necessidade de infraestruturas capazes de proteger população e ecossistema.

Nesse contexto, elaborou-se um masterplan coletivo, construído em oficinas participativas, percursos e observações junto à comunidade. A estratégia entende a quebrada como parque interbairros, articulando vilas por meio de infraestruturas verdes, equipamentos comunitários e corredores de proteção contra incêndios. Mais que projetar espaços, buscou-se uma mudança de olhar: compreender o campamento não apenas como assentamento informal, mas como território com direito à cidade e a um futuro sustentável.

Com base nisso, propôs-se um Centro de Encontro Comunitário em ponto estratégico da quebrada. O edifício conecta o parque interbairros a espaços de uso cotidiano — refeitório, ludoteca e escritórios. Não é um objeto isolado, mas a materialização do masterplan em espaço de encontro, coesão e cuidado mútuo, capaz de fortalecer redes comunitárias.

O projeto também introduz uma tipologia inédita de reservatórios de água, concebidos como protótipo de infraestrutura comunitária. Eles cumprem dupla função: armazenar águas cinzas para o uso diário e formar uma rede de defesa contra incêndios, em território onde o fogo é ameaça constante. Assim, inaugura-se um novo campo de infraestrutura básica para campamentos, combinando segurança, sustentabilidade e cuidado coletivo.

A escolha da alvenaria responde a critérios técnicos e sociais. Em território de difícil acesso e alta exposição ao fogo, o tijolo garante resistência, permanência e apropriação comunitária por meio da autogestão na construção. A materialidade é também recurso pedagógico de aprendizagem e enraizamento coletivo.

O projeto mostra que a arquitetura, além de abrigo, pode ativar processos de resiliência e justiça territorial. A quebrada, historicamente relegada, torna-se eixo articulador de um urbanismo situado, que vincula natureza, comunidade e cidade. Mesmo em contextos de precariedade extrema, é possível projetar infraestruturas que não sejam paliativos, mas gatilhos de transformação social e ambiental.

Mais que exercício acadêmico, trata-se de um processo de investigação-ação que conecta escalas urbana e arquitetônica, passando de um masterplan coletivo a uma infraestrutura comunitária concreta. Nesse percurso, revela-se o sentido do projeto: não impor desenho externo, mas construir coletivamente respostas que combinem memória barrial, cuidado comum e novas formas de habitar em tempos de crise climática.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudante: Victoria Emanuelle Belo da Silva

A produção de moradia popular na Amazônia frequentemente ignora as particularidades ambientais e culturais da região, adotando soluções padronizadas, frágeis e desconectadas do modo de vida ribeirinho. O projeto Casario surge como alternativa, propondo uma arquitetura que combina inovação técnica, identidade local e respeito ecológico, voltada à habitação digna e à regeneração do território.

A concepção se inspira no casario ribeirinho e nas palafitas, reinterpretando essas tipologias segundo critérios contemporâneos. Estruturas em madeira certificada associadas a pilares de concreto garantem resistência, durabilidade e ventilação natural. Estratégias passivas, como orientação solar, sombreamento entre volumes e coberturas ventiladas, promovem conforto térmico e eficiência energética sem depender de sistemas artificiais.

Implantado em Área Especial de Interesse Social (AEIS), na Avenida Brasil, em Manaus, o conjunto integra áreas verdes, equipamentos comunitários e espaços coletivos, fortalecendo convivência, pertencimento e redes de solidariedade. Blocos geminados de dois níveis recebem tipologias variadas, aproveitam a ventilação predominante e criam corredores de ar que funcionam como túneis de refrigeração, melhorando microclimas internos e externos.

No âmbito ambiental, a proposta atua na restauração de igarapés urbanos por meio de drenagem natural, wetlands artificiais e filtros biológicos, transformando áreas degradadas em corredores ecológicos que conectam o ambiente natural à cidade. Assim, habitar passa a significar também recuperar ecossistemas, respeitando os ciclos das águas e os modos de vida tradicionais.

A participação da comunidade é central. O uso da madeira regional permite autoconstrução assistida, mantém técnicas locais e fortalece vínculos com o território. Parcerias públicas, privadas e cooperativas habitacionais ampliam a viabilidade econômica e social, promovendo inclusão, autonomia e protagonismo local.

O Casario demonstra que habitação social, recuperação ambiental e valorização cultural podem coexistir. Ao harmonizar saberes vernaculares, soluções construtivas modernas e cuidados ecológicos, o projeto redefine a relação entre cidade, natureza e sociedade, oferecendo um modelo de urbanismo sensível e sustentável na Amazônia urbana.

Victoria Emanuelle Belo da Silva, natural de Manaus, desenvolve projetos que articulam preservação ambiental e inovação arquitetônica. Sua prática valoriza a recuperação de territórios degradados e a promoção de saberes locais, contribuindo para cidades amazônicas mais justas e sustentáveis.

Implantação do projeto: Equador
Desenvolvimento do projeto: Equador

Estudantes: Teresa Godoy Lema (Fondo Jubilados DMQ-N), José Martí-Paula S. Mendoza G (Pasaje)

N. Teresa Godoy Lema.
Alumni da Pontifícia Universidade Católica do Equador, originária de El Ángel – Carchi. Minha paixão está na reabilitação patrimonial e no design de espaços que vão além do físico: busco criar lugares que fortaleçam a memória coletiva e nutram a vida comunitária. Para mim, a arquitetura é uma ponte viva entre o que fomos e o que queremos ser, uma ferramenta para manter viva nossa identidade e inspirar novas formas de habitar a cidade.

Espaços Intermediários para a Memória: Reabilitação Integral do Fondo de Jubilados–DMQ.
A arquitetura, para além de oferecer refúgio, pode criar espaços que fomentem interações e conservem a memória coletiva. Este projeto propõe um Centro de Bem-estar e Memória focado em idosos, reconhecendo seu papel como guardiões da memória cultural. Identificou-se a importância de conectar esses adultos com crianças, para assegurar que suas histórias e saberes sejam transmitidos às novas gerações. Assim, o desenho propõe espaços que fortaleçam a relação entre passado e futuro, com atividades lúdicas e comunitárias que promovam o bem-estar mental, físico e psicológico de ambos os grupos.

Paula S. Mendoza Gómez
Alumni da Pontifícia Universidade Católica do Equador, arquiteta apaixonada pela capacidade da arquitetura de transformar a vida das pessoas. Concebo o design como uma ferramenta para criar espaços que melhorem não só a qualidade de vida física, mas também a mental e emocional, fomentando o bem-estar, a conexão social e a relação harmônica com o entorno. Busco que cada projeto dialogue com a comunidade e seu contexto, promovendo lugares de encontro, descanso e convivência. A arquitetura não é apenas construção, mas também memória, cuidado e oportunidade de mudança.

Habitação e serviços comunitários no Passeio José Martí-DMQ.
Este projeto propõe a reabilitação do passeio José Martí como precursor de um bairro identificável, reconhecendo que o monopólio hoteleiro expulsou a função residencial da zona, transformando o Centro Histórico em um espaço de passagem sem vida de bairro. Identificou-se a necessidade crítica de recuperar a tipologia da casa pátio republicana como estrutura social ativa, aplicando teorias de Restauração Histórica que equilibrem a conservação patrimonial com a habitabilidade contemporânea. Assim, o projeto propõe espaços de habitação e serviços comunitários que transformem o passeio na coluna vertebral de uma nova comunidade, aproveitando o aumento de usuários do Metro La Alameda para criar espaços de permanência onde famílias multigeracionais possam se apropriar simbolicamente do lugar, estabelecendo um modelo replicável de repovoamento que contrarie a tendência de despovoamento do Centro Histórico.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Aline Saemi Nakamura, Camila Miwa, Livia Naomi Nishijima Yohei, Luisa Caminha de Figueiredo

Desenvolvido por quatro estudantes de arquitetura de diferentes estados do Brasil, o trabalho investiga o papel da arquitetura em territórios que enfrentam há décadas os efeitos mais extremos da desigualdade e da crise ambiental. São comunidades invisibilizadas, racializadas e empurradas para as bordas das cidades e das políticas públicas. Lugares onde o solo cede e alaga, e onde a água não é ciclo, mas ameaça constante.

Na Zona Leste de São Paulo, no bairro Jardim Lapena do distrito de São Miguel Paulista, essa realidade se materializa. A ocupação começou na década de 1950 e hoje abriga cerca de 12 mil habitantes. É nesse contexto que se insere o projeto “Vínculos: entre margens, ciclos e pertencimento” uma proposta que busca restabelecer relações essenciais entre território, natureza e comunidade. O projeto reconhece as pessoas e a natureza, valoriza os processos que mantêm a vida em movimento e reforça o senso de pertencimento de quem já habita o lugar.

A proposta parte de uma estrutura versátil e replicável, conforme a demanda local. Oferece infraestrutura essencial para enfrentar alagamentos, ausência de drenagem, falta de espaços seguros, e cria suporte para relações comunitárias e regenerativas. Reconhece o valor das iniciativas já existentes, mas atua de forma complementar, ampliando a capacidade de resistência e prosperidade dessas comunidades.

A estratégia utiliza a leitura atenta do território e o conceito de acupuntura urbana como ação sensível e imediata. Vazios subutilizados — dentro de raios de 50 metros — foram selecionados para implantação das primeiras unidades, respondendo a demandas identificadas em diálogo com os moradores: banheiros, cozinhas, abrigo e segurança.

Mais do que oferecer proteção física, o projeto propõe uma nova forma de presença: firme, mas respeitosa. Afirma a importância de quem já habita e resiste, oferecendo suporte para que essas vidas possam se reestruturar com dignidade.. Ao elevar as plataformas do solo, também abre espaço para que a natureza retorne e se regenere, restabelecendo relações mais cuidadosas entre corpo, território e ambiente.

Porque sim, a arquitetura pode e deve ser uma ferramenta de justiça social. Mas para isso é preciso reconhecer que, por muito tempo, ela esteve conivente com processos de exclusão, remoção e silenciamento. O desafio não é apenas projetar, mas restaurar vínculos, dar visibilidade e estruturar a permanência daqueles que, por décadas, foram silenciados.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Equipe de estudantes do Centro Universitário Armando Alvares Penteado (FAAP) 

Reconquistar os rios e conviver com as águas: a cura da cidade de São Paulo é um projeto que parte do reconhecimento da origem da cidade. São Paulo nasceu dos rios — Tamanduateí, Anhangabaú, Tietê — que estruturaram a ocupação inicial e eram lugares de encontro, abrigo e troca. Com a modernização, a lógica urbana impôs-se contra a natureza. O Plano de Avenidas de Prestes Maia, nos anos 1930, corroborou com esse afastamento ao canalizar cursos d’água, impermeabilizar margens e transformar rios em vias de drenagem, invisibilizados sob o asfalto. O resultado é uma cidade que vive hoje os efeitos de sua negação: enchentes recorrentes, ilhas de calor, colapso ambiental. Nossa proposta parte de um gesto radical: rasgar a cidade para devolver espaço aos rios. Essa imagem não é apenas poética, mas estratégica. Não se trata de voltar ao passado, mas de recuperar a sabedoria esquecida: a natureza não é obstáculo, mas caminho. A reconquista das águas é o antídoto contra um modelo de “desenvolvimento” que insiste em sufocar o território. O projeto se ancora em três locais simbólicos e complementares, que funcionam como exemplos replicáveis para toda a metrópole: o Parque do Morro Grande, o Córrego do Água Preta e o rio Tietê. Neles, propomos a restituição do curso natural dos rios e córregos, permitindo que voltem a correr livres. Suas margens passam a ser zonas de proteção e convivência, com ampliação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) de forma proporcional aos estudos de risco de alagamento. Essa estratégia transforma os parques lineares em sistemas vivos de drenagem urbana, funcionando como wetlands capazes de reverter enchentes e, ao mesmo tempo, oferecendo espaços públicos de qualidade. A infraestrutura verde é essencial. Espécies nativas reconstroem a mata ciliar, filtram a água e garantem equilíbrio ecológico. Os corredores verdes conectam diferentes áreas da cidade, promovendo biodiversidade e sombra em um território marcado pelo excesso de concreto. Assim, drenagem, lazer, saúde ambiental e memória cultural convergem em um mesmo espaço. Nosso projeto nasce desse desejo coletivo: reimaginar São Paulo a partir de suas águas. Ao devolver voz aos rios, devolvemos o respiro à cidade. É um convite a pensar uma metrópole em que infraestrutura e ecossistema não sejam opostos, mas aliados. Rasgar o asfalto, deixar a água correr e abrir caminhos verdes é mais do que gesto utópico: é estratégia de sobrevivência para um mundo quente.

Desenvolvimento do projeto: Rússia

 Estudantes do TIArch Studio

O TIArch é um Estúdio educacional de design conceitual, baseado na metodologia autêntica de ensino de disciplinas arquitetônicas por Ilnar Akhtiamov. Desde 2009, atua na base da Universidade Estadual de Arquitetura e Engenharia de Kazan. Como parte desses campos de pesquisa, o Estúdio desenvolve temas relacionados à percepção do espaço urbano, estrutura da cidade, comunidades urbanas, implementação de tecnologias modernas e biotecnologias na arquitetura, e muito mais.

Todos os temas de pesquisa lidam com o contexto atual e têm visão de futuro, incluindo o aqui apresentado.
“Somos responsáveis pelo que nossos antecessores construíram.”
Existem inúmeros edifícios abandonados, vazios e em decadência em todo o mundo, herdados de gerações anteriores. De forma tangível ou intangível, essa arquitetura, sendo um parasita no corpo da cidade, cria um campo “tóxico” ao seu redor. Ela marginaliza bairros, cria problemas ou complementa os existentes. Hoje, esse legado forma um desafio sério para os arquitetos e exige uma ótica construída especial para resolver os problemas acumulados.

E se usarmos esses locais na cidade como uma oportunidade para experimentar? Os objetos já se deterioraram à sua maneira – isso nos dá liberdade de ação; a falta de medo de piorar as coisas leva a soluções ousadas e radicais. Como resultado, os objetos podem mudar muito, mudar de função, escala e, às vezes, até de usuários. Mas o mais importante: é dada às instalações a oportunidade de mudar e trabalhar em benefício do indivíduo.

Somos herdeiros das soluções modernistas de arquitetos demiúrgicos, cujo primeiro passo (para futuros erros) foi demolir o passado. No âmbito das soluções propostas, deixamos a demolição do edifício como o pior desenvolvimento possível do objeto, as ações realizadas sobre ele. E não porque o objeto deixa de existir, mas porque algo mais monstruoso e destrutivo pode surgir em seu lugar. Nossa abordagem é baseada em outros métodos – soluções locais e sutis para trabalhar com a arquitetura existente sem demolir o objeto, por mais maligno que possa parecer para a cidade. Ao trabalhar em um edifício, usamos soluções exploratórias e não refinadas que não são uma demonstração das ambições do arquiteto, mas tornam-se uma manipulação salvadora para o objeto.

O tempo da inação acabou — chegou o momento de enxergar os cantos abandonados e esquecidos de nossas cidades não como fardos, mas como espaços de possibilidade, experimentação e novas formas de vida. O Projeto Babilônia convoca não apenas arquitetos e urbanistas, mas, acima de tudo, comunidades locais, artistas, ativistas e todos aqueles que se sentem responsáveis pelo futuro de suas cidades a ir além das soluções convencionais e parar de esperar que a mudança venha de cima. É através da coragem, do engajamento de base e da ação coletiva que podemos respirar nova vida naquilo que um dia pareceu perdido.

«Somos responsáveis pelo que nossos sucessores herdam»

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

O projeto “Cidade das Culturas Populares: encruzilhada insurgente” é uma iniciativa de extensão que propõe a ressignificação urbana e ecológica do bairro de São José, no Recife, Pernambuco. Desenvolvido por estudantes e professores do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco, o estudo responde à demanda da Liga da Cultura Popular, formada por mestres, mestras, brincantes e artistas que se mobilizaram para reivindicar um espaço permanente para manter viva suas tradições e atividades culturais na cidade.

Adotando uma abordagem decolonial e participativa, o projeto tem a ancestralidade local como eixo estruturante para construir uma arquitetura voltada à resiliência urbana e à justiça climática. Sua metodologia baseia-se na escuta ativa e no diálogo contínuo com a comunidade, cujas experiências e expectativas orientaram todas as etapas do trabalho.

A intervenção arquitetônica prevê o reuso adaptativo de galpões ferroviários desativados, convertendo-os em centros multifuncionais com museu, polo gastronômico, centro de formação para saberes tradicionais e espaços para confecção de adereços. A concepção desses espaços segue princípios de sustentabilidade, com intervenções mínimas e reversíveis, com materiais leves, telhas translúcidas, placas solares e preservação da vegetação nativa.

O projeto inclui ainda o Eixo Ancestral, corredor simbólico que conecta o bairro à Bacia do Pina, valorizando a memória afro-indígena, além de espaços como a Grande Encruzilhada e os Terreiros-Arena. Alinhado aos ODS 8 e 11, a proposta foi discutida em audiência pública e visa ser um modelo replicável de valorização cultural e requalificação urbana, fortalecendo não só as comunidades, mas todo o tecido da cidade do Recife.

Equipe de estudantes: Clarice Souza Leão Araújo, Iara de Menezes Cavalcanti, Ingrid Filgueira Rolim, João Guilherme Lucena de Vasconcelos, Lucas Emanuel Melo do Nascimento, Maria Júlia Feitosa de Macena, Salatyel Lameque Carlos dos Santos, Taísa Cardoso de Brito, Victor Polesky de Moura Almeida

Equipe Professores/Orientadores: Andréa do Nascimento Dornelas Câmara, Andréa Melo Lins Storch, Dyego da Silva Digiandomenico, Igor Villares de Carvalho, Luiz Ricardo Fonseca Marcondes, Paula Maria Wanderley Maciel do Rego Silva , Rafael Campos Rangel, Vera Christine Cavalcanti Freire.

Equipe Técnica: João Maria, Alex Costa, Furmiga DUB, Maria Goretti, Aelson da Hora, Francisco Neto, Adriano Sobral, Beto Figueiroa

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Julia Souza, Leonardo Pecht, Giane Barzagl, Ana Flávia, Bianca Silveira e Pedro Sendretti
Orientação: Profa. Dra. Silvia Mikami Pina

O projeto Habitar Mandela teve início no apoio à comunidade Nelson Mandela em Campinas-SP, que sofreu violento despejo mesmo ocupando área que não cumpre função social há mais de 20 anos. Após mobilização e negociação, a comunidade conquistou o direito à moradia. Contudo, a prefeitura e Cohab Campinas condicionou o financiamento a lotes de 90m2 e embrião sanitário de 15m2, iniciativa em total desacordo com o conceito de moradia digna. Assim, para a área adjacente ao residencial construído pela prefeitura, foi desenvolvida esta proposta de Moradia Social visando a mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas e combate à injustiça e racismo ambiental. Prevê diversas praças, espaços verdes abertos, canteiros e jardins. A introdução de vegetação nativa nesses espaços fortalece os ecossistemas locais, ajuda na drenagem, melhora a qualidade do ar e das águas do córrego e também atua como ferramenta para a captura de carbono da atmosfera, sendo um ativo contra ilhas de calor. Foram integradas Soluções baseadas na Natureza para aprimorar a drenagem, reduzir impactos ambientais e melhorar a qualidade de vida dos moradores, trabalhando a favor do ciclo hidrológico. Houve intenso cuidado no desenho do traçado urbano de forma a conter volumes maiores de águas pluviais e a velocidade das águas devido à alta declividade da área. Biovaletas foram implementadas ao longo das ruas para captar e infiltrar a água da chuva no solo, evitando alagamentos e minimizando a erosão. Próximo às unidades habitacionais, jardins de chuva auxiliam na absorção da água pluvial, além de contribuir para um ambiente mais fresco e agradável. Para conter volumes maiores de água, bacias de retenção foram projetadas para armazenar temporariamente o excedente hídrico, liberando gradativamente e evitando sobrecargas no sistema de drenagem. Tais estratégias também foram vinculadas à tipologia e Implantação do conjunto de edifícios de Habitação Social, uma vez que um melhor adensamento permite otimização de materiais construtivos e liberação de solo para áreas livres para praças, áreas de lazer e recreação. O adensamento contribui para o não espraiamento desnecessário de áreas periurbanas e, consequentemente, melhor integração e cobertura dos modais de transporte, valorizando a mobilidade ativa. Os apartamentos são projetados para serem adaptáveis, permitindo atender famílias de diferentes perfis, além das tipologias completamente acessíveis para pessoas PCD. Houve grande atenção para o conforto ambiental das unidades, especialmente a ventilação e orientação solar, colaborando ainda para um morar mais saudável. A opção da materialidade do bloco cerâmico, produzido na região, reforça a identidade e o pertencimento das famílias, ao mesmo tempo que diminui sua pegada ambiental. Para os programas das áreas e equipamentos coletivos, foi considerada a apropriação existente dos moradores, suas demandas e as características ambientais do contexto que implicaram em programas como a praça da pipa, a sede da comunidade; a parede de escalada; as áreas de hortas e pomares, dentre outros. O fortalecimento do vínculo com as comunidades vizinhas foi um dos pilares para a implantação das unidades habitacionais, serviços, equipamentos e áreas de lazer, destacando-se a proposta da ponte de ligação sobre o corrego que elimina o isolamento, ao mesmo tempo que valoriza as áreas de preservação e de proteção ambiental.

Implantação do projeto: Bahrein
Desenvolvimento do projeto: Líbano

Estudantes: Maya Haidar Clara Saliba
Orientação: Sandra Frem

Um dia já foi um próspero mosaico de habitats terrestres e marinhos, a Baía de Tubli é um dos últimos territórios biodiversos do Bahrein — e um de apenas oito principais locais ecológicos protegidos no reino.

Localizada logo ao sul da capital, Manama, a baía historicamente sustentou as comunidades vizinhas por meio da pesca, mergulho de pérolas e agricultura. Suas águas rasas nutrem crustáceos e camarões, enquanto manchas de mangue ao longo da borda oriental formam locais de pouso críticos para aves migratórias. Essa combinação única de riqueza ecológica e patrimônio cultural fez da Baía de Tubli um ativo econômico, social e ambiental vital. No entanto, apesar de sua significância ecológica e localização estratégica, a Baía de Tubli há muito é marginalizada no planejamento governamental. Hoje, porém, sua biodiversidade e os meios de subsistência que sustenta estão sob grave ameaça da invasão industrial, poluição e mudanças climáticas.

Eco-commons reimagina a Baía de Tubli como uma iniciativa de reabilitação ecológica e infraestrutura verde que conecta e amplifica a biodiversidade marinha e urbana por meio de uma rede contínua de habitats para aves migratórias, vida marinha e espécies terrestres. Esta estrutura regenerativa não é apenas ecológica — é urbana, social e econômica.

A rede de habitats proposta funciona também como um corredor de microclima sombreado, integrando mobilidade multimodal, aprimorando a infraestrutura social e expandindo o acesso público à orla. Essas intervenções criam espaços públicos mais frescos e caminháveis, ao mesmo tempo que promovem a continuidade ecológica através das paisagens fragmentadas da baía.

Eco-commons também estabelece as bases para uma transição econômica — de uma economia intensiva em recursos e dominada pela indústria de fundição de alumínio e manufatura pesada para uma economia limpa e resiliente impulsionada pelo ecoturismo, pesca de comércio justo e produção de energia renovável.

A captação, armazenamento e tratamento de água estão incorporados nas paisagens urbanas que alternam entre restauração de habitat, espaços recreativos e áreas de reunião sombreadas. Este design em camadas aborda múltiplas ameaças de uma vez — ondas de calor, secas, inundações repentinas e erosão costeira — enquanto melhora os microclimas locais e expande a biodiversidade.
Crucialmente, o projeto posiciona a gestão comunitária como a base para a resiliência de longo prazo. Ao envolver as comunidades locais no cuidado do habitat, gestão de recursos e operações de ecoturismo, o Eco-commons não apenas restaura ecossistemas, mas também fortalece os laços sociais e gera oportunidades econômicas equitativas.

Por meio da restauração da biodiversidade, adaptação climática e uma transição econômica justa, o Eco-commons transforma a Baía de Tubli em uma paisagem viva, resiliente e regenerativa — onde a saúde ambiental, a vitalidade social e a prosperidade econômica se reforçam mutuamente.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Christian Almeida Campos do Nascimento, Clara Albertini de Queiroz e Felipe de Souza Noto

“A lei do rio não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens. É o império da água. […] O rio diz para o homem o que ele deve fazer. E o homem segue a ordem do rio. Se não, sucumbe.”
Thiago de Mello

As cidades da Pan-Amazônia possuem uma relação visceral com as águas. Muitas têm seu cotidiano marcado pelo regime de cheias dos rios — casos emblemáticos como Anamã (AM) e Afuá (PA), apelidadas de “Veneza da Amazônia” e “Veneza Marajoara”.

Suas metrópoles, porém, à semelhança dos grandes centros brasileiros, no processo de modernização negaram essa relação primeira: igarapés foram sufocados e soterrados em nome do “desenvolvimento”.

Este ensaio propõe revisitar essa ruptura entre cidade e água, imaginando, em chave radical e utópica, o confronto da urbanidade com sua condição natural levada ao extremo: como as cidades amazônicas se adaptariam ao avanço das águas? Quais as consequências dessa transformação? Que estratégias de mitigação seriam possíveis diante de uma nova ordem imposta pela natureza?

O estudo de caso surge quase naturalmente: Manaus, metrópole de contrastes, que cresceu de costas para a floresta e para os rios. Os igarapés dos Remédios, das Naus e do Espírito Santo, na região central, foram soterrados pela modernização, mas retornam nos períodos de cheias severas, retomando leitos que lhes foram negados.

A narrativa parte do antigo Igarapé do Espírito Santo — hoje Avenida Eduardo Ribeiro —, que desemboca nas proximidades do Teatro Amazonas, ícone da Belle Époque tropical e epicentro de nossa especulação.

O Rio Negro é monitorado pelo Porto de Manaus, cuja régua registra oscilações anuais entre 9 e 12 metros. O nível médio situa-se em +22,5 m; em 2021, a maior cheia da história chegou a +30,02 m. Pesquisadores estimam que a cota +35,0 m, diante da intensificação climática, seja plausível em futuro próximo.

Radicalizamos: pensamos Manaus sob a cota +50,0 m — a “Manaus Fluvial”. Nesse cenário, a morfologia urbana reorganiza-se a partir de um léxico já conhecido das cidades ribeirinhas, como Afuá, Anamã ou a antiga cidade flutuante manauara. Saberes construtivos tradicionais — passarelas, estivas, ruas suspensas e plataformas — tornam-se matriz de novas espacialidades urbanas, costurando permanência e deslocamento em meio às águas.

Dada a complexidade da metrópole, o exercício se concentra em três situações irradiadas a partir do Teatro Amazonas: (a) o Edifício Cidade de Manaus; (b) o Casario da Rua 10 de Julho; (c) o próprio Teatro Amazonas. Três escalas, três modos de pensar a adaptação da pré-existência urbana à nova condição. Trabalhamos com duas cotas: +47,5 m, como novo nível “normal”, e +50,0 m, como cheia extrema e nível de projeto.

Utopia ou distopia? Talvez ambas: distópica, por tomar um evento extremo como indutor; utópica, por ver o rio não como obstáculo, mas como princípio ordenador da vida urbana. Ao aceitar a água como condição e não como ameaça, abre-se um campo fértil para imaginar outras espacialidades, novas formas de convivência e permanência.

A “Manaus Fluvial” aqui vislumbrada não é projeto, mas especulação: um convite a pensar o urbano em sua relação primeira com o meio, resgatando memórias silenciadas e antecipando futuros possíveis.

Implantação do projeto: Chile
Desenvolvimento do projeto: Chile

Estudante Isidora Soto,
Orientação: Ximena Arizaga e Osvaldo Moreno

As qualidades geográficas do Arquipélago de Humboldt oferecem refúgio e favorecem uma grande biodiversidade marinha, graças a um cânion submarino que termina entre a costa de Chañaral de Aceituno e a Reserva Marinha da Ilha Chañaral. Baleias que percorrem os oceanos visitam este local todos os anos para se alimentar. Por sua relevância ecológica, foi nomeado como um hope spot mundial pela oceanógrafa Sylvia Earle.

Em um território historicamente habitado por culturas ligadas às práticas marítimas, atualmente são extraídas centenas de toneladas de algas pardas diretamente de seu ecossistema a cada mês. A exportação ocorre em escala industrial, impulsionada pelo crescimento da demanda internacional nas últimas duas décadas.

A Caleta Chañaral de Aceituno não reflete sua importância para a conservação. Carece de infraestrutura adequada para receber os cerca de trinta mil visitantes que chegam a cada temporada, promovendo uma visão distorcida em que a paisagem é destinada ao consumo turístico centrado no avistamento de baleias. Nesse contexto, o local exige um espaço integrador que sustente as atividades produtivas e turísticas, ao mesmo tempo que proteja os habitats marinhos, garantindo a continuidade de uma paisagem valiosa para as populações local, nacional e global.

O avistamento de cetáceos, os bosques marinhos e a tradição pesqueira coexistem na zona entre-marés, definida como área de mediação entre escalas de paisagem. É nesse espaço que se propõe um parque que se estende do mar — nos bosques marinhos sobre relevos rochosos — até a terra, em áreas de embarque, acúmulo de algas e espaços de convivência entre moradores e turistas.

Suas estratégias incluem: primeiro, habilitar um percurso pelo litoral rochoso de Chañaral de Aceituno, transformando as rochas em caminho acessível que conecta mar e terra; segundo, regenerar os ecossistemas entre-marés com jardins marinhos onde se cultivem, reproduzam e utilizem macroalgas como material vegetal estruturante; terceiro, cultivar algas pardas para pesca artesanal, contribuindo para o equilíbrio ecológico local e oceânico.

São propostos quebra-mares com tetrápodes ecológicos que favorecem a integração de organismos, funcionando como habitat. Inspirado no projeto Living Breakwaters do escritório SCAPE, a proposta se diferencia pela incorporação das macroalgas como agentes estabilizadores, ampliando a área propícia ao seu crescimento e oferecendo mais superfície rochosa para sua fixação. Essa mesma estrutura se transforma ao longo da zona entre-marés, criando espaços onde a maré permita usos recreativos, produtivos e socioculturais. Assim, seria possível mitigar os impactos antrópicos, conectando a biodiversidade marinha às práticas ligadas ao mar.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Ana Beatriz Monteiro Furtado, Kayo Gabriel da Silva Sousa, Paulo Henrique Gonçalves Alves Pereira, Tomaz Neto Meneses Cavalcante Medeiros.
Orientação Roberto Alves de Lima Montenegro Filho

No Piauí dos povos originários, do encontro com ancestralidades africanas e com a aculturação portuguesa. Piauí dos rios, do calor e da cultura do barro. Da Esperança Garcia. Em Teresina, fundada em planície onde a cota de ocupação é próxima à dos cursos d’água, convive-se com a variação dos níveis dos dois rios, com chuvas excessivas em parte do ano, alternadas a períodos de seca. Clima de calores extremos, é a capital nacional com média de temperatura mais elevada, com previsão de aquecimento mais acentuado (Wong, et al., 2024), entre aglomerados humanos em risco com as mudanças climáticas: Como habitar esses territórios e lidar com a violência de eventos naturais potencializados? Ilhas como Kiribati já têm quase todo o território parcialmente submerso, enquanto cidades costeiras veem suas orlas ameaçadas.

Com sucessivas inundações entre o Poti e o Parnaíba, o sítio é uma planície úmida e brejosa, com lagoas e vegetação densa, geografia que minimiza impactos das cheias. Território de menor interesse à especulação imobiliária, é habitado por população tradicional ribeirinha, de menor poder aquisitivo, incluindo ex-quilombolas. Recebe pouco investimento público, exceto pelo projeto Lagoas do Norte, para preservação do solo, vegetação e lagoas, nem sempre de forma participativa (MATOS, 2017).

As enchentes são agravadas pela urbanização, com solo impermeabilizado e vegetação insuficiente (SILVEIRA e MONTEIRO, 2013), e com extremos climáticos. O terreno, entre o Rio Parnaíba e o Parque Lagoas do Norte, está em zona residencial. É suscetível a inundações, especialmente na parte voltada à lagoa. Tem frentes para o Parque e uma avenida estrutural, servindo como centralidade local.

A implantação Leste-Oeste potencializa o conforto térmico, evitando a incidência solar Oeste. O sistema construtivo em estrutura independente com bambu permite elevar as construções para enfrentar variações do nível d’água. Materiais leves minimizam custos, gastos energéticos e facilitam a logística, permitindo mutirões. O partido visa disseminar a cultura do bambu: cultivo fácil, que contribui para o tratamento de encostas e minimiza assoreamento.

A forma do edifício segue a solução “Bota e Chapéu” (Armando de Holanda), com grandes beirais para sombra e cobertura clara. Os fechamentos leves empregam taipa de mão, resgatando um saber-fazer tradicional de baixo impacto. A cobertura em abóbada escorada por bambu (tecnologia da Arquiteta Leiko Motomura) evita materiais de alto impacto. Bambu, madeiras e barro são elevados do solo e protegidos por fundação em concreto.

Propõe-se uma nova relação com a cidade e a natureza, onde lagoas e vegetação são vitais para conter a força das águas. Um caráter didático, de reeducação ambiental e resgate da relação com a água. A construção como capacitação, com ética social e ambiental, difusão de práticas e geração de renda. Programa afirmativo das culturas ribeirinhas, de povos originários e africanos ou venezuelanos com tradições suprimidas. Respeito.

Implantação do projeto: Itália
Desenvolvimento do projeto: Itália

Equipe do departamento do curso Architecture for Heritage do Departamento de Arquitetura e Design do Politecnico di Torino.

“Reutilização Adaptativa do Patrimônio Construído” reúne mais de 40 propostas de projeto desenvolvidas por 130 estudantes internacionais, organizados em equipes ao longo de três anos letivos. Este estúdio de projeto integrado concentra-se na criação de estratégias sustentáveis de reutilização adaptativa para edificações e áreas urbanas abandonadas na cidade pós-industrial de Turim. A premissa subjacente é que, ao responder à urgência de reduzir o impacto ambiental da nova construção por meio da reutilização do ambiente construído existente, “novas funções devem seguir as formas existentes”.

A abordagem pedagógica e interdisciplinar combina projeto arquitetônico e urbano, tecnologia arquitetônica e mecânica estrutural para explorar o potencial de reutilização adaptativa de locais vagos ou subutilizados. Estes incluem tanto edifícios de propriedade pública quanto outras áreas urbanas abandonadas atualmente em debate, com o objetivo de injetar nova vida em espaços que correm o risco de abandono.

Os projetos são baseados em 20 locais selecionados a partir do portfólio de ativos públicos do Serviço de Patrimônio da Cidade de Turim – um inventário do estoque de imóveis não utilizados e à venda de propriedade da cidade –, bem como outros locais abandonados significativos espalhados pela cidade. Por meio desses projetos, os estudantes promovem e incentivam a reutilização do patrimônio urbano de Turim como um motor de regeneração cultural, social e ambiental, em linha com o eixo temático da 14ª BIASP “Reformar Mais e Construir Verde”.

Todos os anos, o curso culmina em uma exposição organizada em colaboração com a Prefeitura de Turim e com partes interessadas locais. Os projetos são apresentados por meio de maquetes físicas e de um caderno que documenta o processo de pesquisa por projeto, utilizando um código de cores comum preto–amarelo–vermelho (preservado–demolido–construído). Na Bienal deste ano, quatro projetos em três locais são exibidos. Eles ilustram um processo de projeto que começa desvendando as “camadas de mudança por cisalhamento” (site–estrutura–revestimento–sistemas), continua com desenhos críticos (preservado–adicionado) e culmina em cortes utilizados como uma ferramenta de projeto multiescala.

A equipe proponente, todos afiliados ao Departamento de Arquitetura e Design do Politecnico di Torino, inclui Elena Guidetti, Professora Assistente e Pesquisadora; Michele Bonino, Chefe do Departamento; Emanuele Morezzi, Referente do Mestrado em Arquitetura para o Patrimônio; Matteo Robiglio, Professor líder do curso Reutilização Adaptativa do Patrimônio Construído no programa de Mestrado; Arq. Necdet Ayik; Arq. Ebru Emirbayer e Dra. Ludovica Rolando, tutores e colaboradores no curso, junto com os estudantes internacionais dos últimos três anos letivos: Camila Cadena, Marvin Gronski, Nour Tabet, Melis Guher Ferah, Sahar Tajzadeh, Ahmet Can Basak, Shadi Masihi Pour, Kosar Mohammadi, Jessica Sagar, Laura Zotaj, Parisa Abna, Mahtab Fallah, Fatameh Zarnoosheh e Belynda Aggad.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Domenico S., Gabriel W., Luigi F., Rodrigo C., Tereza P., Yuri T.
Orientação Anália A.

Com o advento da crise climática, o habitar torna-se um problema sistêmico. Passamos da era em que pensar habitação se limitava aos limites do lote de cada proprietário.
Nossa hipótese parte do reconhecimento de um modelo histórico exploratório extrativista que produziu não apenas a devastação ambiental, mas também a dependência econômica e social das populações locais frente a ciclos de exploração. O projeto, implantado na planície fluvial do Lago de Janauacá, busca inverter essa lógica: restaurar áreas degradadas por meio do manejo de espécies nativas para regenerar solos, ativar cadeias produtivas autônomas e permitir que as comunidades possuam uma autogestão de seus recursos vitais.

A ocupação territorial organiza-se a partir de núcleos cooperativos que compartilham infraestrutura coletiva edificados com sistemas pré-fabricados em madeira local. Tais núcleos, como escola, centro cultural, habitação social, mercado e unidade de saúde, são articulados por uma rede hidrográfica e criam uma cidade para cheias e secas, capaz de se adaptar conforme as dinâmicas do território.
Nesse estudo buscamos imaginar novas formas de ocupação no território amazônico. Cidades livres das lógicas extrativistas, soberanas em seus meios de subsistência, capazes de habitar sem depredar. Ao vislumbrar sobre novas paisagens, projetamos modos de vida emancipados, nos quais a relação entre ser humano e natureza se dá de forma simbiótica, possibilitando o florescimento de novos pactos sociais e ecológicos.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Bianca Purkott Cezar, Lívia Tinoco da S. Furtado, Pedro A. de Jesus, Rodrigo M. de Souza

A produção do espaço é um processo condicionado aos meios de produção. É possível conceber o espaço como o conjunto de sistemas de objetos e sistemas de ações. Adotando a visão do materialismo histórico, sistema de objetos é sinônimo de um conjunto de forças produtivas, enquanto sistema de ações é o conjunto das relações sociais de produção. O próprio “descobrimento” do Brasil é consequência direta da necessidade de expansão enfrentada pelo desenvolvimento do capitalismo mercantil europeu. O espaço construído brasileiro surge a partir das capitanias hereditárias e das expedições que visavam a captura de mão de obra indígena. Foram das rotas feitas durante as monções pelos rios do interior brasileiro e, mais tarde, das estações de estradas de ferro, que se expandiram nossas cidades. O avanço da dinâmica econômica dos países da América do Sul para o exterior é um dos fatores que levou à formação de uniões aduaneiras e de blocos de organizações intergovernamentais, como a União das Nações Sul Americanas (Unasul). A partir da organização da Unasul, surgiu a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul Americana (IIRSA), cujo planejamento estabeleceu uma série de conselhos, entre eles o Conselho Sul Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN). Essa iniciativa resultou em diversos projetos de infraestrutura para o transporte de mercadorias entre os países membros, a planificação da infraestrutura e a conectividade regional. Entre os projetos desenvolvidos está a melhoria do trecho ferroviário brasileiro entre Santos (SP) e Corumbá (MS). A reativação desse trecho oferece a oportunidade de repensar seu impacto no território e como utilizar as infraestruturas de transporte a favor de um desenvolvimento que impacte positivamente a população dos municípios que são atravessados por elas. Entre os municípios cruzados pela Malha Oeste, Aquidauana chama a atenção pela proximidade com a área urbana de Anastácio. Inicialmente, a ocupação do espaço das duas cidades deu-se pela margem esquerda do rio Aquidauana, atual Anastácio. Quando a ferrovia Noroeste do Brasil foi construída na margem direita, atual Aquidauana, a presença da estação ferroviária desencadeou o rápido crescimento e aglomeração nesta margem, resultando em rivalidades e na divisão territorial. A reativação da Malha Oeste apresenta uma segunda chance para tratar a ferrovia e a hidrovia, pois lidar com a ferrovia que acompanha o traçado do rio significa também o dever lidar com o próprio rio, a água urbana, o saneamento básico ambiental e os resíduos sólidos urbanos. Essa abordagem é crucial para ambas as cidades, que sofrem com grandes inundações periodicamente, precisando adotar um modelo resiliente ao agravamento da crise climática. Discute-se aqui uma das possibilidades de desdobramento no ambiente das cidades Aquidauana e Anastácio, desde sua relação com a ferrovia, com a água e com o manejo de resíduos sólidos.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Anna Luiza Domingos
Orientação: Iazana Guizzo

O trabalho Raízes Suburbanas: Retomada ecológica na Penha aborda temas como a adaptação climática, a preservação ambiental, a recuperação ecológica, a qualificação de rios, parques urbanos e cidades verdes. A proposta se baseia na potente união entre floresta e cidade, dessa forma elabora uma solução integrada desde a Serra da Misericórdia até o encontro com a Baía de Guanabara.

Por utilizar a metodologia afetiva e participativa de contação de histórias, as intervenções projetuais surgem a partir de narrativas interespecíficas dos próprios moradores do tradicional bairro suburbano. Logo, a proposta se divide em 4 tipologias urbanas: a Serra da Misericórdia, o Complexo Verde, o Bairro Verde e o Parque Alagável Maria Angú. Ademais, o trabalho realiza a análise das vias, resultando na proposta de trama verde com abordagens distintas para cada tipo de via.

O projeto também aborda questões urgentes como a elevação do nível do mar, o aumento das temperaturas, os deslizamentos de encostas e as inundações – alguns dos principais desafios da adaptação climática não só no Rio de Janeiro, como também em outras cidades litorâneas. Assim, a proposta lida com fatores preexistentes no bairro e com outros que surgirão ou serão agravados com o passar dos anos.

O trecho detalhado da tipologia Bairro Verde desenvolve sobre a questão dos rios urbanos, trazendo a Mata Atlântica para a cidade e detalhando as escolhas de espécies nativas com base nas histórias afetivas locais e na fauna. Com isso, o projeto se inspira na própria Penha, seus atores, seus relatos afetivos e na natureza para enfrentar a adaptação climática no Rio de Janeiro.

Anna Luiza Domingos é formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cresceu na Penha, bairro tradicional do subúrbio carioca, e desenvolveu o projeto Raízes Suburbanas no lugar onde estão suas próprias raízes. Durante a graduação, fez parte do projeto de extensão, ensino e pesquisa Floresta Cidade, no qual aprofundou seu interesse pela interação entre a floresta e a cidade, pesquisando sobre outras cosmovisões e possibilidades de habitar o planeta.
Iazana Guizzo é professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do grupo de extensão, ensino e pesquisa Floresta Cidade. Autora do livro “Reativar Territórios: o corpo e o afeto na questão do projeto participativo”. Doutora em urbanismo na UFRJ (2014). Realizou doutorado sanduíche no Institut d Urbanisme de Paris (2012 e 2013). Mestre pelo programa de pós-graduação em Psicologia da UFF (2008) e em bailarina contemporânea pela Angel Vianna (2011). Seus interesses de pesquisa versam com ações de regeneração e convívio com biomas, principalmente relativas às culturas afro-ameríndias, ativistas e artísticas no Brasil.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Amanda Moreira Barchi e Marcelo Caetano Andreoli

Ao refletir sobre as formas de habitar na modernidade, nos deparamos em como a lógica antropocêntrica incide diretamente sobre as nossas relações, sobretudo com a cidade. Fica nítido o papel da Arquitetura e Urbanismo na reprodução e reafirmação dessa lógica, a qual é alimentada pela cisão entre natureza e cultura.

Mudanças climáticas, perda de biodiversidade e tantos desastres naturais nos alertam para o caminho de destruição que estamos traçando para a terra e, consequentemente, para nós mesmos. É necessário repensarmos muitas das nossas ações com a terra e reconhecer a importante luta dos povos tradicionais e do campo, os quais tem nos mostrado e ensinado outras formas de configurar urbanidades, o que reforça que não são todos os humanos que compactuam para a lógica antropocêntrica, mas sim o humano-urbano. O desenho multiespécie aparece aqui como possibilidade de repensar o processo projetual, compreendendo as cidades como espaços indissociáveis da natureza e incidindo em traços que vão além do exclusivismo humano. Compreender a relação entre humanos e não-humanos é aqui um ponto crucial do trabalho, confrontando assim as fronteiras desenvolvidas entre natureza e cultura – e todos seus derivados como campo e cidade, floresta e cidade, rural e urbano. Com isso, o trabalho voltou-se a elaborar uma rota de corredor ecológico conectando territórios indígenas de resistência na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), reafirmando o compromisso do campo da Arquitetura e Urbanismo de contribuir para o habitar de outras espécies e de outras urbanidades. Após a definição da rota do corredor ecológico, aproximamos na escala do desenho uma área com maior intensidade de conflitos antrópicos para elaborar um traçado que considere o habitar de outras espécies, mudando a direção de ataque: a cidade não mais avançando sobre o meio ambiente, mas sim dando espaço para que ele adentre a sua malha e que novas relações entre humanos e mais-que-humanos se estabeleçam no território.

Implantação do projeto: Portugal e Espanha
Desenvolvimento do projeto: Portugal

Estudantes: Bruna Kühn, Hugo Costa, Marta Ferreira e Patrícia Reis

Os EXTREMOS existem hoje em tal grau que é raro encontrar uma situação social, política, territorial ou ambiental não afetada por realidades assimétricas. A palavra “extremo” pode significar algo situado numa extremidade, distante, última; ou um oposto, uma realidade extraordinária. Na proposta que apresentamos, os vários significados tomam lugar numa realidade afundada, num mundo quente.

Diariamente, somos inundados por um manancial de notícias que revelam um mundo desconcertante, que dão nota de um clima estranho, de chuvas torrenciais e, paralelamente, secas infernais. Parece impossível reunir em lugares próximos condições tão diversas.

Nesta perspetiva, a proposta apresentada viaja até à Barragem do Lindoso, na raia – lugar extremo, da fronteira entre Portugal e Espanha. Com foco na aldeia submersa de Aceredo, procuramos criar um imaginário distópico, sobre os efeitos das alterações climáticas no território.
Aceredo foi uma aldeia, na paróquia de Manín, concelho de Lobios (Baixa Limia – Ourense). Desapareceu após a construção da Barragem de Lindoso, e da respetiva albufeira, assente sobretudo em território espanhol, em 1992. A comunidade foi obrigada a deslocar-se para outro lugar, para uma nova terra, deixando para trás o que o rio deu, e o que o rio tirou.

Passados 30 anos, em 2022, durante o intenso período de seca, a aldeia voltou à tona. Em plena Pandemia Covid-19, a sede de viajar, criou um fenómeno turístico com trânsitos infernais e, sobretudo, reavivou as memórias dos dias afogados. De géneses distintas – uma vez que este exemplo parte da artificialização da paisagem, através da criação de um reservatório de água, para produção de energia — os efeitos da subida e descida abrupta das águas, condicionada pelas ondas de calor e pelos intensos períodos de chuva, podem ser identificados, ou pelo menos conhecidos, a partir de Aceredo. A subida das águas, que ameaça as zonas costeiras, o desaparecimento da água doce e com os períodos de seca sucessivos, exigem a urgente mudança de paradigma, da forma como entendemos e atuamos enquanto arquitetos, num meio em constante transformação. O desenho destes processos permite identificar os traços sustentáveis das comunidades e do território, restauram a memória de passados recentes, e dão respostas para o futuro que iremos enfrentar.
O desafio de representar os Extremos, neste caso, cartografado a partir da linha de água – que dilata e retrai -, dos terrenos – férteis e áridos -, evidenciam extremos próximos. A cartografia procura relacionar e medir o clima, com o espaço e o tempo, para um laboratório da água e da sua ausência, da comunidade e do território.

Aceredo: um mundo (quente) submerso.

Procuramos dar corpo a um território que oscila entre o submerso e o deserto, entre o passado e o futuro. A partir de Aceredo, aldeia afundada e posteriormente ressuscitada pela seca, surge a ideia de um mundo em constante transformação, onde a convivência com as águas é a condição. Neste cenário, o direito dos rios cria uma contra-narrativa, que transforma o entendimento das “catástrofes naturais” em “catástrofes humanas”.
Aceredo é um laboratório que permite entender os impactos das decisões políticas centralizadas e o peso das grandes infraestruturas, no quotidiano do território e da comunidade. Através da inteligência artificial, representamos imagens de extremos (im)possíveis, como provocação distópica e não solução, que imagina um cenário próximo, caso as ações humanas não mudem, as políticas não se descentralizem, e a arquitetura não se adapte. Da legislação ao urbano, habitação e produção — os extremos estão sempre no calor da questão.

O projeto apresentado reúne contributos de quatro Dissertações de Mestrado Integrado em Arquitetura na FAUP. Agradecemos os contributos das equipas de orientação para a elaboração da proposta, bem como do apoio da Faculdade na representação institucional.
Esta proposta foi apresentada em maio de 2025 ao Comité EURAU 2026 – Latitudes – Umeå Universitet, Sweden.
Os desenhos e cartografias são originais; as fotografias são de arquivo, indicado na apresentação; as composições propostas foram geradas por IA.

Desenvolvimento do projeto: Brasil

Como transformar a cidade existente? Como podemos projetar metamorfoses urgentes a partir de estruturas urbanas já construídas?

Os terminais de transporte metropolitanos são infraestruturas fundamentais no recebimento e redistribuição dos fluxos da população garantindo o deslocamento diário de milhões de pessoas entre as zonas de centralidades com zonas mais periféricas nas bordas da metrópole. Estas estruturas representam lugares onde a população transcorre um tempo significativo da própria jornada, convivendo em espaços inóspitos, áridos onde tudo é mercadoria!!
Embora sejam essenciais para a mobilidade da população, os terminais são construções de concreto e malhas metálicas em solo impermeável, cicatrizes significativas no tecido urbano. Muitas vezes, isolados e sem relação com os elementos urbanos existentes recebem os usuários sem função de acolhimento. Ao contrário, esta rede em condições climáticas extremas potencializa condições de risco e alagamento e fica ilhada do restante da cidade.

Diante desse contexto, a proposta “Matrizes Verdes” revela um ensaio projetual a partir da (re)significação urbana dos terminais de transporte e suas potencialidades: antes pontos de passagem, e agora, além da sua função modal, passam a operar como espaços de permanência e transformação ecológica e sobrevivência.
As matrizes trazem a natureza como o agente semeador e a fonte de recomposição ambiental e potencializador dos terminais de transportes e seus entornos. Os espaços urbanos degradados e subutilizados no entorno são incluídos no sistema da matriz e transformados em áreas permeáveis com captação, retenção e reaproveitamento de águas das chuvas; reflorestando com vegetação nativa; promovendo diminuição das altas temperaturas. Frutifica-se, então, dentro e fora das matrizes, ambientes de produção cultural, alimentação saudável e gratuita e acolhimento de pessoas em vulnerabilidade social.

À Matriz Barra Funda, foi dada à sua capacidade de alimentar, produzindo hortas urbanas junto ao Parque da Água Branca. Já na Matriz Luz, devido ao seu valor histórico e relação com os equipamentos culturais, foi dada à sua potencialidade de produção cultural. Por fim, a Matriz Brás, em respeito ao presença, sempre crescente, de imigrantes na cidade, foi atribuído o significado de acolhimento, em conexão com o museu dos imigrantes. Isso é abrigo e serviços para quem for chegar e partir, ou a qualquer pessoa que se encontre em uma situação vulnerável, longe do seu país.
Neste recorte urbano a ressignificação dos terminais em matrizes verdes promove a ampliação das funções públicos como práticas culturais, áreas de convívio, alimentação saudável e cuidado, oferta de serviços básicos (água potável e banheiros públicos) para o bem-estar coletivo e a construção de cidades mais justas e inclusivas.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Pensar em extremos nos possibilita agir em rompantes de alguma radicalidade, justamente porque entende que essa ação pode ser carregada de dois movimentos: o de reparação por meio da reflexão do que podia e poderá ser; e o de avanço, como um devir, nascido da revolta do que jamais deverá ser feito novamente.

Ser uma cidade de linhas d’águas pode ser um importante exercício de reparo, não apenas na reparação do significado das coisas, mas na busca do que foi perdido, dilacerado, arrancado, mutilado e, muitas vezes, sequer imaginado.

Se a cidade da garoa, em um curto arco de tempo, se transformou em uma cidade do dilúvio – que arrasta os mais fracos para longe dela – a reparação que convocamos visa a aproximação tanto com os processos de pertencimento pela conscientização da população em relação aos seus direitos como cidadãos, quanto com os instrumentos de resistência para a constituição da possibilidade de uma vida comum. Aproximações que nos fazem apostar em ir de encontro com os problemas para, a partir deles, pensar quais os lugares, elementos e processos contribuem com efetiva e concreta transformação.

O trabalho São Paulo: Cidade Dilúvio pretende dar tessitura ao exercício do projeto de arquitetura e urbano, a partir de indissociável relação entre seus produtos e processos, dando-lhe espessura e, assim, alocando-o aproximado à compreensão dos fenômenos sociais, vindo também dos fenômenos naturais. Para isso, aposta-se nas linhas que abrem e re-velam: os 65 viadutos, tratados por nós como grampos – costuras para transpor a grande fenda-rio da cidade que vivemos – se apresentam como possibilidades múltiplas para reconhecermos caminhos de confluência. Há aqui um entendendimento de que estar em fluxo contínuo e inacabado é condição e (con)formação da própria existência para quem é fluxo. Descoberta de territórios férteis e cheios de impulso transformador.

Esses grampos que esgarçam, na mesma medida que reparam seus extremados movimentos, nos apresentam espaços de possibilidade de usos público e comum a procura de novas águas, respeitando suas particularidades, no lugar de espaços sbutilizados, em aproximação de baixios de infraestruturas e coberturas de construções existentes. Aguas que possam, elas, retornar a construção de paisagens para a vida.

A proposta vê a cidade, enfim, como rio e espaços como dilúvios para, quem sabe, lutar por transbordamentos de vida, vindos de chãos cheios de vida trazida da água, cujo objetivo é o desencadeamento da articulação política de reinvenção de, enfim, outros tempos.

O trabalho foi desenvolvido pelos alunos Tomas Lee Guidotti, Pedro Toni, Diogo da Silva, Fernando Tetsuo, Stephany Araújo, Renata, Tomita, Ana Paula Ramos, Yasmin Negri, Fernanda Vieira, Isabela Tunes, Júlia Pacheco, Leonardo Ferreira, Giovana Gare, em conversas com os professores da Fau Mackenzie Antonio Fabiano, Amaral, Catherine Otondo, Renata Coradin, Luiz Backheuser, Ricardo Ramos, Viviane Rubio.

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

Estudantes: Juan S., Érica C, Darliane G, Luan G, Luana P, Eduarda R, Mateus C, Jefferson F Sá

A emergência climática afeta desproporcionalmente populações marginalizadas – aquelas que possuem menos acesso aos recursos de adaptação e reparação. Os impactos intensos não são só frutos de eventualidades climáticas, mas socialmente produzidos por uma urbanização excludente. Essa vulnerabilidade se mostra evidente na realidade das comunidades Joana D’Arc e Morro das Placas, no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza.

Situadas em uma área de alta declividade e solos instáveis, os territórios apresentam-se como adensamentos consolidados e frágeis ambiental e socialmente. O risco inerente à localização das comunidades se soma à precariedade habitacional e à carência de infraestrutura básica, como a ausência de rede de drenagem e a falta de espaços verdes e livres, refletindo um processo histórico de segregação socioespacial.

Ao considerar o contexto de injustiça ambiental, a intervenção de abordagem integrada propõe soluções infraestruturais e habitacionais nas comunidades, incorporando-as ao tecido urbano e revertendo o cenário de risco em um projeto resiliente e responsivo que se adapta à realidade local.

No projeto, foram propostas soluções que viabilizam a drenagem e saneamento básico, como alargamento das vielas, implantação de biovaletas e criação de espaço de apoio ao manejo de resíduos. Foram pensadas, ainda, a inserção de contenções, capazes de estabilizar as encostas frequentemente suscetíveis a deslizamentos, e a construção de escadarias, que promovem a mobilidade em áreas anteriormente intransponíveis.

Entendendo que a justiça climática também se relaciona ao direito à cidade, foram projetadas áreas livres e de lazer usando-se de soluções baseadas na natureza, bem como foi proposta a implantação de equipamentos públicos. Para as moradias, em uma estratégia combinada de melhorias habitacionais e reassentamento próximo, foram pensadas soluções projetuais de condicionamento ambiental passivo para reformas e tipologias progressivas para novas habitações.

As propostas foram elaboradas coletivamente para contemplar comunidades que resistem frente ao contexto de exclusão e apagamento. A equipe composta por Darliane Gomes, Eduarda Mércia, Érica Correia, Jefferson Freire, Juan Sousa, Luan Baltazar, Luana Gabrielle, Mateus Costa e Sá Nogueira, estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), buscou no trabalho demonstrar responsabilidade social enquanto estudantes de universidade pública ao direcionar para o centro do debate áreas marginalizadas e invisibilizadas, pensando cenários possíveis para a melhoria da qualidade de vida nesses territórios.

Compartilhando experiências em programas e bolsas de pesquisa voltadas à assessoria técnica em arquitetura e cidade, mudanças climáticas e patrimônio cultural, a equipe possui interesses em História e Teoria da Arquitetura e Urbanismo, Tecnologias Aplicadas à Arquitetura e ao Urbanismo, Planejamento Urbano, Assessoria Técnica e Habitação de Interesse Social.

Implantação do projeto: Chile
Desenvolvimento do projeto: Chile

Estudantes por dispositvos: 1.Varenka Garrido, 2.Arturo Villanueva, 3.Sebastian Coria, 4.Aron Fuentes

No projeto de participação cidadã, em conjunto com o grupo CENEU Talca (Grupo de Conservação de Espécies Nativas do Entorno Urbano), além dos estudantes de graduação em Arquitetura da Universidad Autónoma de Chile, se realizou um trabalho de mapeamento do setor conhecido como “El Bajo”, identificando e registrando pontos chave do território que foram fundamentais para o desenvolvimento de projetos individuais.

Essa atividade, permitiu compreender as dinâmicas, características, problemáticas e oportunidades do lugar, para então aplicá-las em propostas de intervenção que conferissem valor à importância da zona húmida na vida periurbana.

A partir da seleção de diversos projetos, foram propostos 4 dispositivos para a construção coletiva em escala real 1:1, com a dinâmica de percorrer “El Bajo” em torno a zona húmida e a água, além de adequar-se as condições especiais de cada sitio proposto. Os dispositivos foram nomeados como: MIRANTE DA ZONA HÚMIDA URBANA “EL BAJO”, AUDITÓRIO DA ZONA HÚMIDA “LOS PATOS”, PARADA ENTRE TRILHA E RIO, ESTAÇÃO SONORA DA ZONA HÚMIDA “LAS RANAS”.

A construção dos quatro dispositivos na zona húmida urbana “El Bajo” de Talca representa um importante passo para sua revalorização, ao transformar o espaço em um lugar ativo, acessível e significativo para a comunidade. Esses dispositivos, desenhados e executados por estudantes de graduação em Arquitetura da Universidad Autónoma de Chile em colaboração com a comunidade, não somente respondem às características naturais e culturais da zona húmida, mas também fomentam seu uso consciente e respeitoso.

Ao integrar áreas de encontro, educação ambiental e recreação, os projetos revitalizam a relação entre as pessoas e seu entorno natural, gerando mais consciência sobre a importância de proteger e conservar esse ecossistema. Assim, a zona húmida não somente recupera parte de sua vitalidade ecológica, bem como se consolida como um espaço de valor social e cultural para a cidade.

Por último, na etapa de candidatura ao Concurso de Escolas de Arquitetura da Bienal de Sao Paulo, cada estudante havia apresentado um trabalho individual autoral. No entanto, a comissão optou pela proposta do estudante Aron Fuentes, na qual o presente trabalho coletivo poderia representar a todos os estudantes da primeira geração da Carreira Arquitetura da Universidad Autónoma de Chile, em Talca (2023-2027).

Implantação do projeto: Brasil
Desenvolvimento do projeto: Brasil

 Equipe multidisciplinar em Arquitetura e Urbanismo e Biologia da UDESC

Laguna nasceu da água e nela sempre encontrou fundamento. Os sambaquis espalhados pela paisagem testemunham a relação ancestral dos povos originários com os corpos hídricos, marcada por escuta e cuidado. A colonização europeia impôs outra lógica: a da dominação e do apagamento. As fontes naturais, antes audíveis na paisagem, foram canalizadas, vendidas em chafarizes e cindidas por torneiras. Hoje, permanecem esquecidas a poucas quadras de onde distribuidoras comercializam águas engarrafadas provenientes de longe.

A urbanização também reforçou desigualdades. Enquanto a elite ocupava a planície central, os pescadores eram empurrados para além dos morros, fundando vilas pesqueiras sobre aterros, vulneráveis à elevação do nível do mar.
A lagoa de Santo Antônio dos Anjos representa a convergência de águas límpidas das nascentes e, ao mesmo tempo, hoje também retém a carga poluente de 26 municípios trazida pela vazão do Rio Tubarão.

Apesar da desconfiguração do modo originário de habitar o território, ainda é possível testemunhar o vínculo local com a água. Os sarilhos personificam a manutenção desse elo: são estruturas erguidas sobre as águas para guardar barcos, uma espécie de extensão da casa que ultrapassa o limite das margens.

+PESCADOR+MEIO+PESCADO+ nasce desse conflito. A pesquisa parte das caixas de peixe como objeto de cadeia operatória, revela como os pescadores nunca compuseram o âmago da história da cidade enquanto traduz sua importância como interlocutor da paisagem existente. A proposta eleva esse sujeito à figura central e se propõe a pensar as relações que o circundam.

O projeto reativa as três fontes, reconstituindo uma malha hídrica que costura os diferentes elementos de um ciclo complexo. A rede permite a irrigação de hortas urbanas, o abastecimento de restaurantes populares e a sua distribuição em torneiras públicas. Antes de desembocar por completo na lagoa, a água se direciona a uma piscina coletiva.

Os sedimentos do assoreamento da lagoa são usados para formar as chinampas, estruturas de cultivo sobre as águas, expandindo as possibilidades de cultivo, enquanto em seus canais, camarão é produzido de forma orgânica.

A pesquisa busca possibilitar que os diversos elementos de um ciclo complexo se reforcem mutuamente e se sustentem, como em redes vivas, qualquer estímulo se propaga como efeito dominó.

TOUR VIRTUAL DA 14ª BIAsp 

A 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Extremos: Arquiteturas para um mundo quente, se expandiu para além do espaço físico e agora pode ser visitada de qualquer lugar! 

O tour virtual propõe uma nova leitura da exposição, que ocorreu de 18 de setembro a 19 de outubro na Oca no Parque Ibirapuera, permitindo percursos de forma fluida, livre e intuitiva entre os ambientes. Durante a visita estão disponíveis os conteúdos curatoriais, imagens em alta definição e detalhes que aprofundam a compreensão espacial e conceitual das obras. 

A plataforma amplia o acesso, preserva a memória da Bienal e cria novas formas de vivenciar a arquitetura. 

Visite aqui a 14ª BIAsp!  

Explore no seu próprio ritmo, revisite percursos e aprofunde experiências. 

Em breve o tour virtual estará disponível no site do IABsp (Instituto de Arquitetos do Brasil – dep. São Paulo)